O telhado do moço aqui anda um pouco carregado. Para aliviá-lo, vou jogar aqui o que me der nas telhas.

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Quinta-feira, Novembro 01, 2007

Anotando IV e V.

"Ao contrário do que em geral se pensa, tomar uma decisão é uma das decisões mais fáceis deste mundo, como cabalmente se demonstra pelo facto de não fazermos mais nada que multiplicá-las ao longo de todo o santíssimo dia, porém, e aí é que esbarramos com o busilis da questão, elas sempre nos vêm a posteriori com seus problemazinhos particulares, ou, para que fiquemos a entender-nos, com os seus rabos a esfolar, sendo o primeiro deles o nosso grau de capacidade para mantê-las e o segundo o nosso grau de vontade de realizá-las. Não é que uma e outra andem a faltar a Tertuliano Máximo Afonso (...). Decidiu (...) e aí se tem mantido firme, e se a resolução ainda não foi concretizada, ou levada à prática, como também usualmente se diz, é porque passar da palavra ao acto tem igualmente os seus quês, os seus rabos a esfolar, é indispensável, por exemplo, que o espirito se arme de forças bastantes para empurrar o indolente corpo ao cumprimento do dever, sem falar dos prosaicos assuntos de logística que não podem resolver-se assim do pé para a mão (...)"

José Saramago, in O Homem duplicado



*****


"A felicidade não tem mistérios.

As pessoas infelizes são todas parecidas. Uma ferida antiga, um desejo negado, um golpe na vaidade, um lampejo de amor extinto pelo desprezo - ou, pior, pela indiferença - aderem a elas, ou vice-versa, e assim elas vivem todos os dias envoltas num véu de ontens. O homem feliz não olha para trás. Ele não olha para adiante. Ele vive o presente.

Entretanto, é nisso que reside o problema. Existe algo que o presente jamais pode oferecer: um sentido. Os caminhos da felicidade e do sentido não são os mesmos. Para encontrar a felicidade basta que o homem viva apenas o momento. Mas se deseja encontrar um sentido - um sentido para os seus sonhos, para os seus segredos, para a sua vida -, o homem deve se reinstalar em seu passado, por mais sombrio que seja, e viver para o futuro, por mais que seja incerto. Assim, a natureza acena a todos com a felicidade e o sentido, insistindo apenas para que escolhamos entre eles."


Jed Rubenfeld, in A interpretação do Assassinato

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