Terça-feira, Janeiro 16, 2007
Idéia fixa.
"Os elementos da consciência contemporânea não se adaptam mais à nossa condição de mortais. Jamais, em qualquer outra época e em qualquer outra civilização, pensou-se tanto na idade. Cada um tem na cabeça uma perspectiva simples de futuro: chegará o momento em que a soma dos prazeres físicos restantes será menor do que a soma das dores (em resumo, sente, no fundo de si mesmo, os ponteiros girarem - sempre no mesmo sentido). Esse balanço racional dos prazeres e das dores que cada um, cedo ou tarde, acaba por fazer, desemboca, inexoravelmente, a partir de certa idade, no suicídio. É engraçado observar, a respeito disso, que Deleuze e Debord, dois intelectuais respeitados deste fina de século, suicidaram-se sem razão precisa, simplesmente porque não suportavam a perspectiva da própria decadência física.
Esses suicídios não provocaram nenhuma surpresa, nenhum comentário; em geral, os suicídios de pessoas idosas, de longe os mais freqüentes, parecem-mos absolutamente lógicos. Pode-se também observar, como traço sintomático, a reação do público diante da possibilidade de um atentado terrorista: na quase totalidade dos casos, as pessoas preferem morrer na hora do que ficar aleijadas ou desfiguradas. Em parte, claro, porque estão saturadas da vida, mas sobretudo porque nada, inclusive a morte, parece pior que viver num corpo mutilado."
Michel Houellebecq, in Partículas elementares
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